(espelho HTTP de gopher://carlos-cdb.top)

Quando eu era pequeno meu acesso a jogos eletrônicos era completamente
limitado. Eu tive bastante daqueles mini games com 1 bilhão de jogos
repetidos e me diverti bastante, era uma época sem internet, (na 
verdade quando eu era pequeno sequer computador a gente tinha) então eu
não sabia muito sobre o que existia de jogos por aí, nem revistas a
gente tinha direito, morando em uma região periférica onde muito
raramente íamos até o centro da cidade não tinha como comprar uma,
mesmo assim quando meu pai ia com minha mãe até o centro eles muitas
vezes traziam pra mim algum gibi da Turma da Mônica e sou muito grato 
por isso, eu achava extremamente divertido ler aquilo, mas esse não é o 
assunto aqui hoje.

Conforme fui crescendo eu comecei a conhecer videogames que nunca imaginei
que existiam, meu irmão pegava emprestado com amigos desde Super Nintendo
até um Sega Saturn (até hoje não sei se realmente era ele, mas pelo que
lembro provavelmente era, uma lembrança que tinha muito forte era de que
existia uma entrada pra um tipo de cartucho e lugar para colocar cd, o que
bate com o slot de expansão do Saturn e sua mídia de jogo que era o cd).
Depois de ver essas coisas eu queria ter algo para jogar em casa, aqui
perto de casa tinha uma feirinha de quarta-feira, ela ficava tipo umas 4
quadras de casa. Um dia andando por lá eu vi ele, o temido: um Polystation.
Obviamente que ele não me enganava nem um pouco, pela caixa dava pra ver
que seus jogos eram muito inferiores aos que já tinha visto, então
diferente de muita gente que os pais foram enganados e compraram algo que
seus filhos não queriam eu realmente queria aquilo.

Começou então a saga para tentar comprar aquilo, como a gente não tinha
muita grana seria complicado, mas sempre que eu ia lá eu ficava namorando
ele, perguntei o preço uma vez (se não me engano era R$ 50 na época) e
comecei a importunar meu pai, acho que falei tanto daquilo que até ele
ficou curioso. Um dia algo inesperado aconteceu: Ele falou "vamos la ver".
Então ele foi comigo até lá e realmente comprou ele, a felicidade foi
tremenda. Atualmente eu tenho um Polystation guardado aqui por conta dessa
memória. Uns anos atrás eu coloquei ele pra jogar o Duck Hunt e meu pai
passou pela porta e lembrou daquilo, ai mostrei pra ele que tinha comprado
o videogame que pedi pra ele quando era pequeno, acho que nesse momento 
ele viu o quanto significou pra mim, infelizmente ele já faleceu, mas
me deu coisas muito importantes, sejam materiais ou imateriais, então fica
aqui meu agradecimento, muito obrigado pai.

Mas voltando a época que comprei o Polystation, passou um bom tempo e meu
irmão conseguiu comprar um Playstation 1 usado. Lembro até hoje que era 
um modelo Slim com dois controles com analógicos meio ferrados já e um
estojo cheio de jogos (obviamente piratas). Ali eu vi algo que me pegou
de uma forma impressionante, e não foram jogos fodas em 3D, o primeiro
jogo que vi meu irmão jogando nele foi "X-men vs Street Fighter". Eu
achei aquilo realmente impressionante, eu pedi pra jogar com ele e ele
permitiu. Eu nem sabia de onde aquele jogo vinha, nem que aquela versão
que eu estava jogando era "capada" mas era impressionante de qualquer
forma.

Dando um pequeno salto para não fica em detalhes pequenos, anos depois
eu tive meu primeiro contato com um computador. Meu pai e meus irmãos
fizeram algum serviço (eles são marceneiros) e o cliente ofereceu o
computador como pagamento. Provavelmente meus irmãos explicaram para
meu pai que seria um bom negócio e eles aceitaram. Veio um gabinete que
devemos ter até hoje perdido por aqui branco com detalhes cinzas, um
monitor tubo com aquela proteção que colocava na frente da tela, uma
impressora (essa não lembro como era, mas provavelmente era toda branca
como quase tudo na época) e duas capas plásticas, uma para o monitor e
outra para a impressora. A pessoa entregou com o sistema instalado que
eles usavam e com arquivos deles. Na tela tinha alguns atalhos que eram
só a página inicial de um jornal salva, como a gente não entendia nada
a gente achava que de alguma forma já estávamos com algum acesso a
internet, confusão que logo foi desfeita quando percebemos que tudo que
a gente clicava caia em uma pagina de erro.

Depois de comprar muitos cds de jogos (aqueles famosos que vinham cheios
de demos e as vezes algum jogo completo) e softwares (nessa época
compraram o Autocad 2000, que meus irmãos aprenderam a usar sozinhos
e até hoje é usado como uma das ferramentas de trabalho deles, obviamente
uma versão mais nova) conseguimos acessar a tão aguardada internet.
Meus irmãos descobriram um software discador que era o Pop Discador e
arrumamos uma plaquina de fax modem. Aprendemos nas primeiras tentativas
e após chegar a conta de telefone que era uma brincadeira um pouco cara,
mas serviu de aprendizado, logo já tínhamos a informação de que sábado
depois das 14h poderíamos conectar e pagar mais barato e com isso passamos
a ter acesso regular, mesmo que uma vez por semana e com uma velocidade de
56 kbps.

Agora sim começou a brincadeira, a quantidade de tralha que a gente baixava
era gigante. Era a época de ouro do Baixaqui, ali a gente baixava desde
softwares simples como programas para recibo até demos de jogos para
computador. E não se enganem se parecia muita coisa, uma demo de algum jogo
desse não passava de 20mb, e a gente deixava baixando por horas as vezes
passando de um dia para o outro. Nessa época que me veio o impacto: Só agora
com internet eu tinha descoberto que aquele jogo de luta que vi rodando no PS1
era originalmente de uma placa arcade, mais especificamente a CPS2.
E algo mais impressionante ainda: mesmo o computador que a gente tinha sendo
bem ruim (não lembro as configurações, mas de memória provavelmente ele não
tinha sequer 512mb) era possível emular aqueles jogos de forma satisfatória.
Agora eu tinha a noção que esses jogos eram de máquinas que as pessoas
jogavam pagando ficha e quais as diferenças entre essa versão e a de PS1.

Nasceu então uma nova paixão: jogos de fliperama. No primeiro momento isso
ficou bastante em cima da cps2, mas logo eu descobri que tinha uma sucessora
(cps3 claro), mas essa já não rodava tão bem. Pelo que lembro não era nem
questão do hardware fraco que a gente tinha, mas porque a emulação da placa
estava evolunido ainda. Como outras máquinas da Capcom essa tinha sistemas
de criptografia onde a chave era guardada em uma memória não persistente que
ficava constantemente alimentada por uma bateria. Logo se essa bateria
acabasse antes da manutenção já era o jogo. Ela tinha uma novidade
interessante: os jogos poderiam ser distribuidos em cds. E quando eu digo
distribuídos é só distribuído mesmo, porque os jogos não rodavam desse cd.
Basicamente você tinha alguns componentes para fazer o jogo rodar: 
1 - CD com o jogo (opcional, existiam versões "NO-CD");
2 - Memórias persistentes muito parecidas com memórias rams de hoje (deveriam
ter o tamanho correto para o jogo a ser usado, então quem tinha a maior
quantidade de pentes dessa memória poderia rodar todos os jogos, e quem tinha
a menor quantidade rodaria os jogos menores somente);
3 - um cartucho, sim, é nesse cara que está a chave do jogo e a maldita bateria
que vai segurar essa chave até o dia que esquecerem esse cartucho e ela matar
a chave, triste isso;

Basicamente você poderia rodar o jogo das memórias direto (então depois de
gravadas elas eram praticamente um cartucho do jogo) ou pedir para copiar um
novo jogo do CD (processo demorado). Por isso existiam versões NO-CD, as memórias
vinham gravadas e era só usar. Vou deixar uma imagem aqui, baixem via wget ou curl:

https://carlos-cdb.top/server/upload/1720808387477-0_NjBcfP9untXZUHEz.jpg

Na imagem: Leitor de cd do lado esquerdo, cartucho com label azul seria a chave
do jogo e os pentes de memória atrás seriam as memórias persistentes onde os jogos
são gravados.

Outro jogo que acebei descobrindo nesse processo foi o Marvel vs Capcom. Não
demorou muito para descobrir que existia uma sequência de mesmo nome, ou seja
o "2". Aqui começou um problema, esse jogo não foi lançado nem pra CPS2 e nem
CPS3, ela sai na placa SEGA Naomi. Na época (e até pouco tempo atrás) a emulação
dessa placa era muito precária, isso associado ao hardware lixo que a gente
tinha fazia não valer a pena emular. Tanto que na época era comum ter máquinas
piratas desse jogo (isso so fiquei sabendo enquanto pesquisava todas essas 
coisas quando era mais novo), não com emuladores, mas sim com um Dreamcast lá
dentro. O Dreamcast que é um console que tenho muito carinho era praticamente
um modelo mais fraco e compacto da Naomi, com várias similaridades na aquitetura.
Por conta disso vários jogos dela saíram no Dreamcast com poucas alterações.
Como os jogos eram versões domésticas (sem o famoso insert coin) eles faziam
várias gambiarras, desde as mais simples como cobrar por tempo, e cada máquina
tinha um "interruptor" que cortava os controles da máquina, o interruptor
obviamente ficava em um lugar seguro no balcão do dono, até as mais complexas
como essa "lancheira" que os caras criaram, basicamente você colocava o 
Dreamcast dentro dela, ligava os cabos, tinha uma saída compatível com os
arcades que já incluia por exemplo o gerenciamento de ligar desligar controles.
Segue uma imagem dela: 
https://carlos-cdb.top/server/upload/1721060816799-e43a7dc08d075d8179887fd4747e2e71.jpg

Sobre a placa em si, ela poderia ser usada de forma similar a CPS3, você tinha
jogos gravados (aqui em uma peça parecida com um cartucho) ou distribuídos via
GD-ROM (disco proprietário da SEGA). Um método extra seria via rede ethernet,
que inclusive hoje em dia foi totalmente hackeado, então tendo o equipamento
necessário você pode carregar os jogos via um computador. Essas duas formas
além de somente comprar o cartucho do jogo funcionavam por meio de "cartuchos
especiais", que continham as memórias e saídas para o conector do GD-ROM ou
porta ethernet. Essa placa é meu sonho de consumo, espero um dia ter a
oportunidade de ter uma. Segue uma imagem: 
https://carlos-cdb.top/server/upload/1721061075239-Sega-Naomi-1-Motherboard-Zero-Gunner-2.webp

Depois de tudo isso eu já estava mais velho e começando a ganhar minha grana,
atualmente eu vivo o velho dilema de ter muita coisa pra jogar e pouco tempo
para fazer isso. Mas de qualquer forma é muito satisfatório pode ter acesso a
vários consoles hoje em dia, poder ver o que cada um pode entregar, poder jogar
diversas versões de jogos antigos por meio de coletâneas (inclusive de fliperama)
e naqueles que são destravados poder brincar com emulação e softwares não oficiais.
Atualmente eu tenho aproximadamente 10 consoles funcionando: Playstations 1, 2, 3,
4 e 5, Xbox One, Xbox Series S, Nintendo Wii U e Switch e o Dreamcast. Percebam
que não tem nada muito velho ai, como comecei a jogar meio tarde e com pouca grana
quando tive a oportunidade de comprar comprei coisas mais atuais, claro que no ps3
por exemplo que é desbloqueado eu posso jogar vários consoles mais antigos por meio
de emulação, então não é um grande problema. E é isso, fica ai meu breve progresso
conhecendo jogos ao longo da vida. 🕹️